Ia LEITURA - Sb 9,13-19
Estamos na capital cultural do helenismo. Como
inculturar a fé judaica sem abandonar o essencial da riqueza
religiosa do judaísmo? É claro, o mundo grego tem
também muitos valores que podem ser assimilados. É
preciso repensar a fé com seriedade e fidelidade.
Sb 9,1-18 é uma prece, onde se pede a
sabedoria. A inspiração de fundo é a
oração de Salomão registrada em 1Rs 3,6-9 e 2Cr
1,8-10. O autor reza como se fosse Salomão. Diante do
endeusamento da filosofia grega, o autor pede insistentemente a Deus a
"sabedoria que se assenta contigo no teu trono" (v. 4).
É só com esta sabedoria que se pode enfrentar a
realidade, superar os desafios e aprender o que é
agradável a Deus. O autor faz uma crítica severa a esta
filosofia endeusada que pretendia dar resposta para tudo. Na verdade,
os desígnios de Deus são insondáveis aos homens,
suas intenções são impenetráveis (v. 13).
Por outro lado, "nossas reflexões são
precárias". Não conhecemos bem nem mesmo o que
está ao nosso alcance, como investigar, então, as coisas
do céu (v. 16)? Tudo seria realmente impossível se Deus
não enviasse do alto o seu espírito, sua sabedoria.
É só assim que podemos chegar ao conhecimento da vontade
de Deus. O que é a sabedoria? Podemos identificá-la
primeiramente com a lei, que ensina o que agrada a Deus e conduz o
homem à salvação (v. 18). Mas colocando a
sabedoria em paralelo com o Santo Espírito (v. 17), o autor
relembra Jr 31,31 e Ez 36,26-29: na nova aliança um
espírito novo derramado sobre nós nos ajudará a
reconhecer e cumprir a vontade de Deus. Assim a sabedoria se identifica
com o próprio Espírito de Deus.
2a LEITURA - Fm 9b-10.12-17
Esta cartinha é algo de fantástico.
Parece muito com as cartas que nós escrevemos para os amigos,
pois tem assinatura, remetente e é pequena. É bem
diferente de uma carta aos Romanos, por exemplo. São apenas 25
versículos. Trata-se da devolução a Filêmon
do seu escravo fugitivo Onésimo, convertido por Paulo na
prisão. Apesar de pequena e pessoal é também uma
carta eclesial. Ela é dirigida a Filêmon, como
também a Ápia, Arquipo e à Igreja que se
reúne na casa de Filêmon. A carta é fina, delicada
e cheia de ternura e caridade. Paulo tem autoridade para mandar, mas
prefere pedir. Quem pede é uma pessoa idosa, prisioneira de
Cristo (v. 9). O que Paulo pede? A libertação de
Onésimo? Não. Pelo menos não o faz de modo
explícito. Paulo não proclama a libertação
dos escravos. O mundo não estava sociologicamente preparado para
isto. A economia era baseada na mão-de-obra dos escravos. Mas
Paulo lança os fundamentos da libertação ou pelo
menos, mina as bases do estatuto da escravidão. Paulo pede
acolhida caridosa e amável, pois considera Onésimo como
seu próprio coração (v. 12). A carta é
muito sábia. Paulo está preso por causa do Evangelho.
Filêmon poderia muito bem estar servindo a Paulo na
prisão, mas ele não pode fazê-lo, então
Onésimo seria um ótimo substituto (12). Mas Paulo vai
mandá-lo de volta, pois não quer nada forçado.
Estas coisas devem ser espontâneas, devem brotar do
coração (v. 14). Deus escreve certo por linhas tortas.
Certamente Filêmon terá Onésimo agora para sempre
(v. 15) não mais como escravo, mas como irmão. Querido de
Paulo ele também será querido de Filêmon como homem
e como cristão (v. 16). O v. 17 é um cheque-mate:
"Se, pois, me tens como companheiro, recebe-o como se fosse a mim
mesmo". Como não atender?
Você não atenderia a um pedido tão afetuoso e
extremado?
EVANGELHO - Lc 14,25-33
A grande viagem
"Grandes multidões acompanhavam
Jesus". Para onde? Desde 9,51 Jesus tinha tomado a
resolução de caminhar para Jerusalém para entregar
sua vida por nós. Aqueles que o acompanhavam vão aos
poucos tomando consciência de que essa caminhada é sem
retorno, é decisiva e definitiva, supõe desapego, exige
coragem, exige fé.
Quais são as condições para
seguir Jesus?
São basicamente três: Primeira: o
desapego afetivo. Para seguir Jesus, para ser seu discípulo
é preciso colocá-lo em primeiro lugar. É preciso
amá-lo mais que todos os parentes. É preciso até
mesmo renunciar à própria vida (v. 6). Segunda:
disponibilidade para a cruz. Cruz simboliza todo o tipo de
sacrifício para levar em frente o projeto de Jesus. Caminhar
atrás de Jesus com a cruz às costas significa a coragem
de subir o calvário e dar a vida a exemplo de Jesus (v. 27).
Terceira: renúncia total (v. 23). Se a primeira
condição foi a renuncia dos bens, vê-se que aquele
que nos deu tudo pede tudo. Um exemplo de entrega total vemos em Paulo
que, depois que descobriu Jesus, considerou tudo o mais como esterco
(Fl 3,7-8).
Calcular o risco (vv. 27-33)
Não se pode seguir a Jesus sem uma
decisão firme. Jesus pede para os discípulos ponderarem
antes de tomarem uma decisão irreversível. Para ilustrar
isso, Jesus conta duas pequenas parábolas. Provavelmente, ele
reflete desânimos e deserções de alguns na
caminhada ou pelo menos adverte contra isso. Primeira: a
construção de uma torre. Quem não calcular
direitinho os gastos não vai conseguir terminar, e vai ser
caçoado pelos que passarem. Segunda: o cálculo de guerra.
Quem só tem dez soldados não vai entrando numa guerra
contra quem tem o dobro. Primeiro ele vai calcular bem se consegue dar
conta. Se acha que não dá, ele vai procurar a paz. Tudo
isso é bom para dizer que seguir Jesus supõe
decisão firme renúncia total e coragem de correr o risco.
Você se acha no seguimento de Jesus?
Dom Emanuel Messias de Oliveira
Diocese de Guanhães
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