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A Palavra do Pastor
A PALAVRA DO PASTOR
A ceia do Senhor em 1Cor 11 e seu contexto
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           Paulo faz uma censura à comunidade cristã de Corinto, que celebrava com discriminações e humilhação dos mais pobres, reflexo das divisões daquela difícil comunidade. A pressa, a gulodice,  a embriaguês dos ricos escandalizavam  e deixavam sem bebida e alimento os mais pobres. Paulo diz que a ceia deles causava mais dano que proveito.  A ceia é uma refeição especial; quem tiver com fome coma em casa! Paulo diz que a comunidade não merece louvor neste ponto. Aliás, o que acontece é um desprezo à Igreja e uma vergonha diante dos mais pobres. (Cf. 1Cor 11, 17-22). Por que estão acontecendo coisas deste tipo na comunidade? Afinal, que modelos os coríntios estavam seguindo para acontecer tais coisas?

Banquete patronal

. O que era o patronato? Era um dos meios de o império romano controlar seus súditos. No sistema de patrocínio e clientela, o imperador dominava os mais ricos, doando terras e cargos especiais. Também os mais ricos dominavam os mais pobres com troca de favores. Havia verdadeiras bajulações dos clientes para com seus patronos. Um dos meios mais comuns de controle dos ricos sobre os pobre era a “associação de voluntários” e seu banquete patronal, que acontecia, pelo menos uma vez por mês em forma de um a refeição comunitária. O local era a casa do patrono (mais poderoso).
Seguiam norma precisas. De uma lado os ricos;  do outro, os pobres, libertos e escravos. Os ricos ficavam na sala de jantar, bem mobiliada e enfeitada a rigor, em número de oito a dez pessoas. Do outro lado, no pátio, os pobres com menos conforto; às vezes, tinham que ficar em pé e recebiam comida e bebida inferiores; os primeiros a serem servidos com os melhores alimentos, naturalmente, eram os ricos, convidados ilustre e patronos.
 
As diferenças sociais entre pobres e ricos eram claras, mas as normas tinham que ser compridas à risca e desonrar um convidado ilustre era um escândalo. Depois da refeição, seguia-se o “convívio,” que era uma festa divertida com bebidas palestras, debates, concertos etc. Isto era para facilitar os contatos entre os associados. Mesmo aqui, havia normas rígidas respeitando a posição da hierarquia social, quanto a lugares de honra, momentos de assumir a palavra, etc. Brigas e conflitos eram proibidas por respeito ao anfitrião ou a um convidado ilustre. . As normas rígidas eram para evitar a disputa entre associações ou dentro delas e para manter a “divisão social”, como também, para defender os interesses dos membros ilustres. Aqui a gente vai entender a veemência profética de Tiago, em sua carta no capítulo 2º. Ele repreende severamente a discriminação entre ricos e pobres nas assembléias litúrgicas. O mesmo faz Paulo, aqui na 1Cor.

A ceia do Senhor

Junto à mesa é que aprofundamos os laços de amizade, de reconciliação, fazemos nossos planos, nos alimentamos com a refeição e com os bate-papos. A refeição é momento abençoado e privilegiado para o judeu; partilhar a mesa implica na vivência da comunhão fraterna.


Há duas refeições tradicionais em Israel

Há a  HaBuRaH, uma refeição fraterna, e a PeSaCH, que é a Páscoa, celebrando a libertação da opressão egípcia)

  HaBuRaH  é  reunião, ligação, associação, expressando  uma refeição fraterna. Da mesma raiz hebraica surgiram as palavras: amigo, sócio, consórcio, companheiro, aliado. Nesta refeição todos trazem seu alimentos, especialmente pão e vinho ( bênção do Senhor). Tudo é partilhado com a oração da bênção, do agradecimento ao Criador de todos os bens, e há a reafirmação da fé comum. Será que na ceia de Corinto estava presente a espiritualidade da HaBuRaH? Ou será que a Ceia de Corinto não se assemelhava mais ao banquete patronal greco-romano?

PeSaCH (páscoa) é o memorial dos grandes feitos do Senhor, suas maravilhas no meio do povo, principalmente, a libertação da opressão egípcia. Na ceia de Jesus, ele e o cordeiro imolado e partilhado. A ressurreição de Jesus é a vitória do amor sobre a ganância, a discriminação, o egoísmo, a violência e o ódio. O sangue de Jesus tinge as comunidades com sinal do novo êxodo, da nova páscoa.
 
Para as primeiras comunidades era da participação na Ceia do Senhor, da participação no corpo e no sangue de Jesus que brotava o compromisso com os pobres da sociedade e com  a libertação de todos(as) e  de todos os males. A ceia do Senhor era também o Memorial da libertação da escravidão egípcia, como também recordação da Última Ceia e atualização do sacrifício da cruz, como libertação e salvação da escravidão do pecado. A Ceia Eucarística aponta para um novo  xodo, para o  xodo definitivo, dando força e coragem para resistir contra as forças da morte, na luta de cada dia.

Que elementos judaicos aparecem na ceia do Senhor em Corinto? Nela está o sentido essencial da refeição do povo judeu: memorial (“Porque eu recebi do Senhor o que  vos transmiti: O Senhor Jesus, na noite em que foi entregue , tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo, que se dá por vós; fazei isto em memória de mim”; a mesma coisa fez Jesus com o cálice de vinho (Cf. 1Cor 11,23-26). Outros elementos: comunhão, partilha, festa, prazer da convivência, do alimento e da bebida; a  bênção e a esperança? A  Eucaristia não é simples ritual, como nos ritos mistéricos, mas é a vida com o corpo e o sangue de Cristo com incidência profunda na vida concreta de cada um e da comunidade.

No v. 27 Paulo diz:”Assim, pois, quem come do pão ou bebe do cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue dos Senhor”. Quem não vive a comunhão em sua família e em sua comunidade, quem tem o coração fechado para o perdão não pode receber o sinal sacramental do corpo e do sangue do Senhor, na Celebração Litúrgica. “Examine-se, pois, cada um a si mesmo e então como do pão e beba do cálice; pois aquele que come e bebe sem discernir o corpo (do Senhor), come e bebe sua própria condenação.” (vv. 28-29). ( Sou devedor nesta “Palavra do Pastor” das pp. 5-11 e 18- 24 da  Revista “Vida Pastoral – set-out de 2008 – ano 49 – n. 262)
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