Já iniciamos a quaresma na Quarta-feira de
Cinzas, dia 17 de fevereiro, portanto estamos em plena quaresma. Para
que e o que fazer nesta quaresma? Começo lembrando que o
número 40, embora seja 39 mais um, tem o simbolismo primeiro de
uma geração, mas, no fundo, é o tempo da nossa
peregrinação neste mundo. O que nós fazemos no
tempo quaresmal deve ser um exercício para vivermos toda a nossa
vida mais próximos de Deus e das pessoas, amigas e inimigas,
ricos e pobres, brasileiros e estrangeiros. Por falar em estrangeiros o
pensamento corre logo para o Haiti. Na quaresma lembramos e nos
esforçamos para viver a tríplice
relação que caracteriza
o ser humano: sua relação consigo mesmo, com o outro e
com Deus. Poderemos acrescentar, por força da necessidade,
também a relação com o mundo, ou o meio ambiente,
do qual viemos ao longo do tempo descuidando, chegando hoje a perigos
catastróficos.
Quando nos referimos à “relação consigo mesmo”, queremos dizer que nós temos que cuidar de
nós sob todos os aspectos que envolvem a nossa vida. No tempo da
quaresma a palavra indicada para isto se chama “jejum”. Parece
engraçado dizer que jejum é cuidar de nós mesmos!
Mas o que é o jejum? Ficar sem comer? Comer menos? Sim. Mas
é só isto? NÃO. Isto é o de menos. Vejamos
o que nos diz o profeta Isaías sobre o jejum que agrada a
Deus: “O jejum que eu quero é este: acabar com as
prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em
liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a
comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo ,
vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua
própria gente”(Is 58,6-7). Acho que sobre o jejum podemos
ficar por aqui. Quem quiser aprofundar é só meditar a
fundo sobre este trecho de Isaías e compará-lo com a
própria vida. O jejum não nos enfraquece, mas nos
fortalece, nos torna mais pessoas ao gosto de Deus.
“Relação
com o outro”: Já percebemos
que o jejum que agrada a Deus já nos fala da
relação com o outro. Neste tempo de quaresma a relação com o outro se chama
esmola.
Também esmola não é apenas dar uma coisa a quem te
pede. A relação de respeito com a dignidade do pobre, a
atenção e a ternura em tratá-lo como se fosse o
próprio Cristo são mais importante do que o que
você doa. Às vezes você pode doar muito e isto
não significar nada para o seu próprio crescimento. O
modo de dar a esmola é mais importante do que a própria
esmola. O outro tem que sentir que você é irmão
dele. A palavra esmola pode também ser ampliada de um pouco de
farinha à doação de si mesmo em algum trabalho
humanitário, ao cuidado pelos doentes, crianças
carentes, idosos, visita a hospitais, asilos, creches, etc.
“Relação
com Deus” – Jejum e esmola no
seu verdadeiro sentido já tem muito da nossa
relação com Deus. Mas na quaresma chamamos a
relação com Deus de oração. Oração não é só
falar com Deus, como diálogo não é só
conversar com um amigo. A oração implica postura, tempo,
recolhimento, dedicação, silêncio, escuta. Como faz
bem um tempinho de oração bem feita! A
oração é você e Deus, mas como você
nunca foi você sozinho, sem relação com o outro e
com o mundo. A oração inclui sua vida, a vida de todos,
sobretudo a vida dos mais necessitados, e o cuidado com a casa onde
você mora que é o nosso planeta terra. Nós somos
pó. Fazemos parte da terra, do planeta, do povo que habita este
planeta. A oração individualista que se resume em :
“eu e meu Jesus” é exatamente o contrário do
que Jesus deseja. É egoísta e intimista. Um horror! Veja
o modelo que Jesus nos apresenta no “Pai Nosso”.
Bem, não posso prolongar mais, meu
espaço terminou, mas acho que já dá para meditar
um pouco.